ILHA DAS FLORES

                                                                                                  ILHA DAS FLORES

                                                                                            

 

                                                                                                                         Por: Bruno Rocha e Roberta de Araujo Carvalho 

 

REFLEXÃO SOBRE O DOCUMENTÁRIO “ILHA DAS FLORES”, DE JORGE FURTADO, 1989

 

 

 

 

 



            Lembro a primeira vez que assisti “Ilha das Flores”. Era muito mais nova, estava na escola, mas a sensação ainda é nítida. Fiquei chocada, inconformada, me sentindo totalmente impotente perante aquela maldade, e profundamente triste. Agora, depois de tanto tempo, mais velha, e talvez com mais senso crítico, assisti de novo. E as sensações ainda são as mesmas, ainda bem! Tenho muito medo de um dia presenciar algo semelhante e não sentir nada. Me sentir anestesiada, conformada com as conseqüências da desigualdade social, e com a miséria. Quando vejo alguém pegando comida do lixo na rua, ou uma criança visivelmente sob efeito de drogas, ou outras situações que de alguma forma nos remetem aos seres humanos que vêm depois dos porcos na linha da prioridade, fico sempre estarrecida, me sentindo mal e chocada. Mas, o que faço para mudar essa situação? Como reajo ao meu próprio sofrimento perante a tudo isso? Na maioria das vezes, não reajo. E isso, é o que realmente me incomoda atualmente. Sentir mal assim como eu, a grande maioria das pessoas sente. Mas fazer algo que não seja imediatista e puramente para aliviar a sensação de mal estar (como dar dinheiro, ou comida, ou roupas), são pouquíssimos. Se agíssemos tanto quanto discutimos e elaboramos teorias acerca da miséria, do capitalismo e suas conseqüências, da desigualdade social e tudo que permeia estas situações, teríamos mudanças mais reais na busca pelo fim da perversidade deste sistema, que não só aceita, como precisa da pobreza, da alienação, da miséria, da falta de saúde e educação para continuar existindo. Terminada essa reflexão, discorro um pouco agora sobre o documentário Ilha das Flores, e minhas percepções.

            O documentário nos mostra a dura realidade enfrentada pelo ser humano mediante as consequências das inovações industriais e da miséria. A ganância pelo poder e a falta de consciência geradas pelo sistema capitalista, desenvolvem  seres humanos egocêntricos que fingem não ver a realidade da exploração do homem sobre o homem, e esquecem da solidariedade e afeto entre seus semelhantes. Observa-se  a lamentável condição de sub-existência dos habitantes da ilha das Flores, seres humanos que numa escala de prioridade, estão depois dos porcos, mostrando que a condição de ser humano (“telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor”) não significa nada, nada mesmo. O que realmente significa algo, é o dinheiro, pedaço de papel que dita as regras. Os seres humanos que vêm depois dos porcos na hora de se alimentarem não têm dinheiro, nem dono e são livres. Livres? A liberdade, para os habitantes da ilha das Flores não traz a felicidade esperada, em sentido inverso traz a miséria e a condição inferior à dos porcos, por estar diretamente ligada aos fatores socioeconômicos que o ser humano possui ou não possui.

            Outra questão, muito bem ilustrada pelo documentário, é o processo de trabalho, e as interligações e desdobramentos de uma atividade realizada para gerar lucro: o processo do cultivo e venda do tomate. Tomando o tomate como centro, o filme discorre sobre matéria-prima, mão de obra, empregados e empregadores, condições de trabalho, a busca pelo lucro, comércio, produtos e resíduos. Ao observar o processo do tomate, é possível refletir sobre outros processos de trabalho, outros produtos, outras situações e condições, já que a lógica da venda de um bem, o lucro, o processo capitalista é o mesmo para os mais diversos serviços.

            Pensemos na saúde. Atualmente, a saúde é vendida, é um bem, tem valor, gera lucro (muito lucro!). Quem pode pagar, pode recorrer a atendimento particular, tido como o melhor. Quem não pode pagar, recorre ao serviço público. O serviço público de saúde no Brasil, é fundamentado teoricamente em princípios muito bons, coerentes, justos. Teoricamente... na prática, infelizmente é bem diferente. A perversidade é tanta, que o raciocínio é manter a saúde pública ruim, para que a população prefira pagar por algo que deveria ser um direito, e gerar lucro, lucro, lucro!

            E finalmente, comparando o documentário com a sociedade: como já foi dito, a trajetória do tomate representa as implicações e processos de trabalho. A vendendora de perfumes representa a classe alta e média, que trabalha para poder consumir, que vive inserida na lógica capitalista e a perpetua. Os porcos representam o proletariado, sendo seus “donos” os empregadores. Estes, conseguem obter a comida fornecida pelos donos,  que representa um salário extremamente baixo e péssimas condições de vida. E a população da Ilha das Flores, que vêm depois dos porcos, relaciona-se justamente aos excluídos, marginalizados, miseráveis de nossa sociedade, que não têm espaço para se inserir.

            O documentário coloca em pauta a discussão acerca da pobreza, que é o resultado da desigualdade social e da péssima distribuição de renda, e até a própria condição que nós mesmos nos colocamos numa sociedade altamente consumista. Em suma podemos dizer que o documentário mostra de forma contundente como é o sistema político-econômico em que vivemos e quais as consequências advindas dele.

            Ilha das Flores é um documentário de 1989, 22 anos atrás. É impressionante como continua perfeitamente atual. É alarmante, na realidade. Em 22 anos, nada mudou nesse sistema, e continuamos vivendo seguindo essa lógica, como se fosse a única alternativa de vida. Será? Até quando?

publicado por brpalavrassoltas às 20:34